Criançada em festa

Outubro, mês das crianças, pipoca, algodão doce, cama elástica, gritos, sorrisos e alegria pura. A semana aqui foi corrida com uma atividade voltada para esse público que não tem preocupação, a não ser a tarefa de casa. Foram 06 escolas, com alunos por volta de 7, 8 anos de idade, visitando a padaria do supermercado e ganhando lanche.

Durante 05 dias o supermercado foi visitado por quase 220 crianças que desciam correndo da perua e aguardavam ansiosamente pela padaria.

Acompanhei o máximo que pude e notei grandes diferenças das escolas particulares pelas públicas. Mas muito tinham em comum também.

O assunto principal foram as eleições. As turminhas conversavam sobre os candidatos a vereadores e prefeito. Gritavam os nomes dos vencedores e dos que perderam também. Sabem de tudo. Falam de tudo. Ganhei alguns apelidos como o Tia Carol, Carolina com “C”, Moça Bonita e tiaaaaaa, tiiiiiaaaa, tiiiiiiiiaaaaaaaaaaaaaaaa. Ao passar pelos corredores cheio de produtos até chegar na padaria, eles conversavam com embalagens de maiosene, vidros de azeitona e sacos de macarrão. Tirando o alto tom de voz, se comportaram bem e agradeciam sempre.

O que me chamou a atenção mesmo foi a pobreza da escola “de graça para a pupulação”. Quando entrei no pátio dessa escola para ajudar a organizar a turma, vi meninas de 14 anos estudando junto com crianças de 8 e 10 numa mesma sala. Nas paredes da sala de aula que conheci haviam cartazes feitos pelos alunos que ilustravam uma história chamada “O menino que não queria ser preto”. Vi algumas frases como “Não quero mais ser omilhado”, “joelhei e resei” e “O sabão pra ficar branco custava 1 raol”.

Guardei o rosto de dois pestinhas chamados Matheus e Antônio. São aqueles que mais chamam a atenção, xingam as meninas, mas são reservados. De tanto fazer bagunça, sempre levam a culpa, mesmo quando não fazem nada. Seus cadernos eram encapados com páginas de revista, o lápis todo comigo e a mochila rasgada, assim como o uniforme. Matheus tem 10 anos, olho claro e rosto bonito. Antônio é alto, tem 10 anos também e olhos pretos.

Enquanto eu esperava a perua chegar para buscar a segunda turma dessa escola, um menino chamado Diogo entrou com uma vasilha para buscar o almoço. Uma professora me explicou que “aqui a gente dá almoço para algumas casas, quando sobra do almoço dos alunos”. Diogo tem 12 anos e um irmão gêmeo que ficou deitado o tempo todo no chão, na porta da escola. Ambos têm problema mental, com dificuldade na fala e ao andar. O Diogo me chamava o tempo todo para tomar café na casa dele, tinha o rosto todo sujo de catarro e pés descalços. De repente me pegou nos braços com força e começou a me beijar. Fiquei meio sem jeito, sem saber em como agir, fui ficando suja de catarros até que uma professora gritou “Vai embora pra casa! Vai embora que a hora do almoço ainda não chegou!”. É na base do grito mesmo. Tem certos momentos que tem de ser assim e olha que as professoras dessa escola eram mais pacientes do que as de algumas escolas particulares.

Hoje é o último dia e será mais uma escola particular. É de freiras que prometem uma ótima educação para seus filhos, aos olhos de Deus.

A escola pública também promete uma ótima educação. Pelo menos tenta. A grande diferença é que as Irmãs da escola particular andam na última moda, de salto e esmalte. E as professoras da pública dividem arroz, feijão e bife com os alunos no recreio das 9 horas da manhã.

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1 comment so far

  1. Li on

    amo criança!


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