Sem volta

Ela tinha roído todas as unhas até sangrar e se arrependeu pelo resto da noite por ter tido tantas atitudes idiotas naquele tempo.

Ela acordou jogada no chão da sala, suja, imunda com tanta porcaria ingerida durante todo aquele tempo.

Ela chorou a tarde inteira, tentou usar todo tipo de desinfetante pelo seu corpo, tomou 15 banhos e se arrependeu por ter se sujado tanto durante todo aquele tempo.

Era bela, esperta, inteligente. Tinha tudo que queria, mas conseguiu ser estúpida e não tinha volta.

Assustou a família e saiu de casa vestindo trapo, os cabelos raspados com a lâmina de barbear do marido, o couro cabeludo todo cortado e com sangue escorrendo pelo pescoço.

Andou pelas ruas e sentiu o vento no rosto que secava o sangue e formava cascas em cada corte. Andou pelas praças e sentiu o calor do chão em seus pés.

Começaram a apontar para a louca desconhecida, para o zumbi em forma de mulher que andava pela cidade. Começaram a gritar, a correr e ela xingou cada um deles.

Ela preferia morrer, ela havia perdido tudo, nada tinha mais sentido. Ela perdeu o que havia de melhor na sua vida durante aquele tempo, maldito tempo.

A polícia chegou, a reportagem chegou, a multidão se aglomerou e todos olhavam assustados para a moça suja de sangue e louca que vestia trapos.

Ela gritou pedindo que a matassem com um tiro no coração porque ela deveria morrer pelo coração que a fez sofrer durante todo aquele tempo. Ela chorou no asfalto dizendo que tudo poderia ter sido diferente. Ela estava arrependida e deveria morrer pelo coração. Quando disseram que não iriam atirar ela chorou mais e implorou sua morte.

Uma criança na multidão largou das mãos da mãe e correu até ela, fitando-a nos olhos. Ambas se olharam e a criança disse que ela ainda era linda, apesar da tristeza no olhar.

A louca da cidade pegou nas mãos da criança, disse que não dava mais e pediu desculpas antecipadamente, mas ela precisava morrer, precisava fazer com que a matassem.

Começou a enforcar a criança que ainda a encarava e aos gritos da mãe a polícia teve de atirar no coração da mulher.

Ela caiu no chão, morta pelo seu próprio coração. Seus olhos estavam tristes e mortos, seus lábios entreabertos e mortos, sua face cheia de sangue e morta.

No velório o caixão ficou fechado o tempo todo. Apesar de morta e de ter morrido com os olhos tristes e desesperados, pediram para esconder uma morta tão bonita de tanta felicidade.

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1 comment so far

  1. Rafael on

    Nelson Rodrigues, hein?


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