Archive for novembro \29\UTC 2008|Monthly archive page

A minha amiga

Doce, brava, bonita, ingênua e de alma boa. Sua pele é morena, seus cabelos e olhos negros e sua boca sorridente.

Ela tem um perfume marcante, um jeito de se vestir que é só dela e o sorriso mais sincero que a gente já viu. Como uma bela taurina, ela é muito sensual e com ela não existe meio termo.

Ela pode não ter tudo que ama, mas ama tudo que tem.

É marcada por uma alegria constante e pela quantidade de “por quê?” que fala em uma conversa. Gosta de saber dos mínimos detalhes, mas custa a falar de seus próprios detalhes. Consegue ter um segredo dela só pra ela, causando um certo ar misterioso, mas que logo pode ser desvendado se você conquistar a sua confiança.

Ao seu lado caminham a animação e o mal humor. É brava quando tem que ser. Mas quando não tem motivo, é a mais verdadeira companhia para sorrir, refletir e dançar até o dia amanhecer.

Ela tem um coração bom, portanto não a machuque. Ela tem a melhor das intenções, portanto se você quiser, ela vai se entregar. Ela gosta do complicado, gosta de atenção, valoriza a aparência e é toda mansa. Mas não pise na bola, ela fica enfurecida!

Preste atenção e, acima de tudo, valorize cada manifestação de afeto desta garota. Se você acha que são raros os carinhos, é porque eles são sempre sinceros quando acontecem.

Você aprende a lidar com ela aos poucos e se encanta a cada dia.

Para conviver com ela não é necessário um manual. Para ela é tudo muito simples, afinal, ela está ali, presente, para que você irá complicar?

P.S.: Deixe que ela complique e então tome cuidado para não se apaixonar. Só ela é capaz de te conquistar por suas simples complicações.

O Beijo de Despedida

Ele a convidou para jantar e prometeu deixá-la em casa cedo.

Ela aceitou jantar e prometeu que não iria estar de regime naquela noite.

O jantar até que foi bom e ela arriscou algumas taças de vinho para acompanhar aquele homem da boca bonita.

Como prometido, ele foi levá-la em casa logo após o jantar e então ele deu um beijo de despedida. As línguas começaram a se cruzar, a se encostar de forma mais rápida. A respiração foi ficando acelerada e as mãos começaram a se mover.

Ele pegava em seu rosto, em seus cabelos, em sua cintura e tentava atingir outras partes.

Ela segurava forte os cabelos dele e controlava suas mãos que tentavam invadir outras partes.

Mas o sorriso dele era lindo, o beijo maravilhoso e as mãos bastante criativas.

Tentaram se espremer no banco de trás do carro, ele por cima dela, ela por cima dele. Eles estavam suados, ela sem a blusa, ele sem a camisa e sem a calça. Ela precisava entrar logo, mas suas pernas não conseguiam se fechar mais.

A calcinha dela foi parar na direção e a cueca dele debaixo do banco. As bocas já não se desgrudavam mais, os corpos colaram um no outro e o carro não parava de balançar.

Acabaram. Estavam suados e ofegantes. Ela arrumou o cabelo, procurou a calcinha, vestiu a blusa e sorriu sem graça. Ele não encontrou a cueca, vestiu a calça assim mesmo, vestiu a camisa e calçou os sapatos.

Voltaram para o banco da frente e ela se despediu. Mas dessa vez, sem beijo de despedida.

Papo de amigas (amigas?)

– E aí? O que fez ontem?

– Dormi. E você?

– Aquilo.

– Devia ter dormido. Agora vai se arrepender.

– Não vou mesmo. Foi bom.

– E o Marcelo?

– Gosto dele. Mas eu sei o que vocês já fizeram.

– Como?

– Ele me contou. Desencana, ele não te quer. Ele riu de você.

– Ele sempre ri de você quando está comigo.

– Por isso ontem saí com o Felipe.  Se ele quer aproveitar, eu também vou aproveitar.

– Foi bom com o Felipe?

– Foi. Ele sabe beijar, sabe onde pôr a mão.

– É grande?

– Médio. Já vi maiores.

– Grande demais machuca. Uma vez até sangrei, foi um desastre.

– Eu também prefiro médio. Não sou uma atriz pornô.

– O que mais vocês fizeram? Onde mais ele colocou a boca?

– Larga de ser besta. Foi o básico mesmo.

– Papai-mamãe?

– Nem tão básico. Mas ele tem uma língua. Língua e mãos…

– Ele beijou lá! Pode falar.

– Não, é sério.

– O Marcelo já fez isso em você?

– Já. Em você também?

– Já.

– Nojento.

– Muito.  Como ele pode chegar nesse ponto com nós duas?

– Trouxa. Pega as duas e ainda faz isso?

– Mas você é a que ele assume de vez em quando para o povo. Você gosta dele.

– Gosto. Mas depois de saber disso, que ele faz de tudo com as duas… Melhor acabar com essa história.

– Ele fez ontem. Na verdade eu dormi com ele.

– Mas antes de ontem ele fez em mim! Cretino!

– Viu? Ta gostando mesmo dele. E fica de bobeira com o Felipe.

– Melhor largar o Marcelo de vez.

– Pra quê? Pra chorar o resto da vida?

– Gostei de ontem ter ficado com o Felipe. Não vou sentir falta do Marcelo.

– Faz o seguinte, fica com o Marcelo pra você. Não preciso dele.

– Mas o que eu faço do Felipe?

– Hoje ele já me chamou pra sair. Deixa que eu cuido dele.

Dona Flor e seus 2, 3, 4 e talvez 10 maridos

Dona Flor tem um jeito interessante de viver, que deixa suas vizinhas morrendo de inveja. É jovem, bonita, inteligente, esperta e cuida da confecção da família. Não tem curso superior, mas sabe administrar bem os negócios. E os homens também.

Talvez não seja culpa dela ter tantos homens aos seus pés.

Toda manhã ela pega sua agenda e confere: “Hoje é dia do Ricardo”. 1,2,3, até 4 para cada dia da semana, cada um mais apaixonado que o outro.

Encontros no almoço, no lanche, na janta, no fim de semana, após sair da confecção. Para tudo e para todos tem um horário diferente.

Eles sabem que não são os únicos, mas não se importam, quando estão com ela todos os problemas vão embora com o perfume, o sorriso e o olhar de Dona Flor. Certo dia ela recebeu um pedido de casamento. Pobre coitado…

Dona Flor não se apega. Ela não quer compromisso, ela não quer amar, mas é cheia de amor pra dar. Seu carisma vicia e a cada pedido de casamento que recebe, é um espaço vazio na sua agenda para ser preenchido.

Uma amiga sempre diz: “É, Dona Flor, se nunca amar ninguém, vai morrer sozinha”. Dona flor diz que não se importa e dá as costas.

Ela não se importa mesmo, pois sabe que não vai acabar sozinha, afinal, há um segredo: Dona Flor ama e sabe que ele vai voltar.

A garrafa amarela, entregue a ela

Eu peço desculpas pelo meu mau humor e minhas respostas sem paciência. Peço desculpas por ter me esquecido que minhas maiores características sempre foram a criatividade, a alegria e o otimismo. Desculpa por ter criado o hábito de criticar o tempo todo.

É falha minha, perdoe a minha dificuldade de entrega sentimental e minha mania de fugir. Mas eu volto.

Perdoe todas as vezes que tirei conclusões precipitadas e julguei pela aparência. Vou tentar não repetir. Vou tentar também não ser tão perfeccionista.

Desculpe os meus medos, meus bloqueios, minhas incertezas e meus erros constantes. Meu lado feminista, meu lado frio, meu lado nervoso e direto. Minha mania de deixar tudo para a última hora. Minha preguiça na hora errada.

Enfim, posso dormir aqui com vocês?

Dia dos Finados: 2 em dose tripla

O Dia dos Finados chegou e já passou. Dois em dose tripla para mim porque além de ser dia 2 de novembro eu fiz 22 anos.

É um dia interessante de se fazer aniversário porque todos perguntam assustados: “Você nasceu no dia dos mortos???”. Sim. Enquanto vocês choram por mortes eu sorrio pela vida.

Como eu não quis fazer festa, apenas programei um simples almoço com alguns poucos amigos, que acabou cedo e sobrou tempo para eu fazer uma coisa que nunca fiz no Dia dos Finados: ir ao cemitério.

Chamei o meu pai, companheiro de todas as horas, e fomos até o cemitério ver o resultado de um dia dedicado a pessoas queridas que já se foram. Flores, velas, flores, velas, flores e velas.

Quando paramos o carro, chegou um garotinho magrelo em uma bicicleta que foi logo falando: “Quenta centavo pra oiá seu carro moço”. Esse dia 2 de novembro é tão badalado que o cemitério fica super movimentado, rendendo alguns trocadinhos pra comprar drogas ou dar o dinheiro pra mãe que fica sentada esperando os pirralhinhos vigiar os carros.

Parecia que tinha tido uma festança, pois a rua do cemitério estava cheia de lixos como cartelas de cigarro, papeis, descartáveis, chicletes e flores esmagadas e sujas. Ao entrar no cemitério vi mais flores e velas por todos os lados. Flores de plástico e flores de verdade. As floriculturas vendem bastante nessa época, né? Até depois de morto a gente continua fazendo um papel importante na economia.

Em alguns túmulos encontrei bilhetinhos que basicamente diziam que em breve todos vão se encontrar e que Deus sabe o que faz. Os túmulos estavam reformados, com tinta nova, inclusive os mais simples. O número de bebês e crianças mortas era até grande. Chegou a me dar uma tristezinha quando vi a foto de um bebê de três meses com uma frase embaixo “saudade eterna”.

Algumas mortes eram recentes e outras muito antigas que não deixaram de ser lembradas. Os vasos de flores eram perfeitos, lindos e tinham um adesivo ou etiqueta da floricultura em que foi comprado. Você compra um vaso de flor caro, lindo e deixa lá. Não importa se vai chover ou ventar. O importante é comprar, rezar, talvez chorar e deixar lá.

O Dia dos Finados é mais uma data capitalista, tipo Dia dos Namorados. Igual você só resolve dar presentes, flores e bilhetinhos para a sua namorada no dia 12 de junho, você só dá flores e bilhetinhos para seu morto naquele dia exato. É mais um evento no qual você paga para vigiarem seu carro e não deixa de sujar a rua jogando lixo no chão.

É um dia onde você faz grandes investimentos em flores que poderiam ser bem cuidadas em sua casa, na varanda. Mas você prefere deixar em cima de um túmulo que você precisou lembrar onde fica e não se importa que a chuva, o vento ou o passar do tempo vai deixar aquelas lindas flores tão mortas quanto seu “ente querido”.