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Auto Escola

A vida está por aí, correndo feito louca e a gente corre atrás dela tentando ficar vivo, porque parece que respirar, comer e dormir é o único sentido de estar por aqui.

Às vezes a gente tromba com alguém, fala com alguém e no dia seguinte não lembramos de mais ninguém. As pessoas passam despercebidas mesmo.

Quando eu tinha 18 anos eu tirei carteira de motorista pela primeira vez. Um tempo depois eu acidentei de carro e acabei perdendo a suada carteira.

Assim que fiquei sabendo que teria de voltas à auto escola pra assistir a todas as aulas de novo, fazer todas as provas de novo, me deu uma raiva muito grande. E o pior: eu teria que pagar pelo processo todinho, já que minha mãe não queria fazer essa parte financeira.

Eu fiquei um bom tempo pensando na razão de eu ter batido o carro. Pensei até que eu ia encontrar o grande amor da minha vida dentro da auto escola. Poderia ser um colega, um professor, um pedestre passando pela auto escola bem na hora que eu estivesse saindo ou chegando.

No começo foi difícil assistir às aulas novamente. Eu enrolei tanto, que perdi o processo e tive que pagar tudo de novo e começar tudo de novo.

Então a vida estava correndo e eu nem percebendo. Mas de repente vi que eu já estava ficando meio conhecida lá dentro da escola. Alguns professores sabiam meu nome e me conheciam por causa da minha avó que joga água nos alunos que fazem baliza na porta da casa dela.

Então eu já sabia fazer todas as provas escritas de olho fechado e estava ficando legal ir aprender umas coisas que eu já sabia, que eram leis de trânsito e dirigir.

Com o passar do tempo eu e alguns professores fomos conversando e a gente percebe que além de aprender a dirigir, aprendemos também um pouco da história de cada um. Aprendemos que a vida deles é muito mais que entrar no carro e falar onde virar, onde dar a seta. Cada um deles tem seus problemas, assim como nós, suas tristezas e suas felicidades. Seus objetivos, sonhos e vontades.

E na maioria das vezes, cada aluno que sai de lá não se lembra mais daquele que deu o máximo para ensinar algo que parece ser simples, mas não é.

Esses dias passei na prova e pela segunda vez consegui adquirir minha CNH.

Acho que não teve mesmo uma grande razão de eu ter perdido a carteira. Não encontrei grande amor, não encontrei um buraco com 15 milhões de reais debaixo da mesa onde eu sentava, não virei motorista famosa de Fórmula 1 e nem me deu vontade de virar.

Mas tive a oportunidade de parar de correr um pouco nessa vida e conhecer mais algumas pessoas que, quem sabe um dia, eu não as verei novamente com aquelas vontades e sonhos realizados?

 

Dedico este texto aos esforçados professores da Auto Escola Piloto aqui da minha cidade, Ituiutaba. Pode ter sido uma aula apenas com cada um deles, mas foi o suficiente para me acrescentar algo a mais no meu crescimento pessoal.

O texto abaixo foi feito pelo meu primo Lucas. A história é verdadeira, apesar de ele ter mudado o nome da personagem. 🙂

Porta de Garagem (ou PONTO DE BALIZA)

 

Pseudônimo do autor: Rubão

 

         É engraçado como alguns acontecimentos do nosso dia a dia, por mais inocentes que possam parecer, alteram profundamente nossa estabilidade emocional. Talvez porque provoquem uma alteração da rotina, a mais preciosa propriedade do homem contemporâneo. Quer algo mais protegido e avesso a mudanças que a rotina? Apesar de constantemente criticada, ninguém – ou quase ninguém, há sempre aqueles de comportamento inesperado – quer mudá-la.

O próprio organismo humano tem sua rotina, o relógio biológico sabe exatamente que o horário de se ver livre dos restos apodrecidos de alimentos que estão alocados no intestino é precisamente após o almoço. Eu mesmo às vezes tenho que sair correndo da mesa para o mais confortável dos tronos, meu protestante e exigente intestino grita imperativo: “a sobremesa pode ficar para depois!”.

Saber que o almoço estará à mesa no horário certo acalma a revolta do estômago e, por conseguinte, do resto do organismo. Assim como é confortante o “Jornal Nacional” começar sempre em seu horário habitual, o tanque de gasolina acabar sempre perto do sábado, o comercial de TV durar exatamente o tempo de ir ao banheiro e correr à cozinha para pegar umas bolachas e a porta da garagem estar sempre livre ao se chegar em casa. E é exatamente isso que não acontece com dona Helena.

Sempre que vai entrar ou sair da garagem de casa, dona Helena é obrigada a travar uma cabeluda discussão com os instrutores de auto-escola que insistem em ensinar baliza aos seus alunos na porta da sua garagem.

– Roda dura duma figa, tira essa banheira colorida da porta da minha casa! Biiiii – biiii…

– Calma, dona! Calma! – responde calmamente o infame instrutor. O aprendiz, agora mais nervoso do que antes, tira, aos trancos, o automóvel do local, quase provocando um acidente sem precedentes ao sair sem olhar para trás.

Dona Helena já até proibiu o marido de estacionar a caminhonete debaixo das árvores que ele plantou em frente de casa para lhe servir de sombra e que os instrutores usavam para servir como referência às tão faladas balizas, mas um gentil desconhecido faz a gentileza de alocar seu Opala cinza no local, afinal “uma sombrinha dessas dando sopa é azeitona na empadinha”, mantendo assim o ponto de baliza.

Dona Helena já tentou de todos os recursos possíveis para ver sua garagem livre, mas todos foram em vão. Já reclamou na direção da auto-escola, lugar onde já é conhecida como “a dona imperfeita do ponto da baliza perfeita”, já ficou escondida durante um dia inteiro com uma vassoura na mão para espantar a vassouradas os futuros motoristas e já fez até um abaixo assinado, no qual conseguiu obter a suntuosa quantia de 582 assinaturas. Isso sem contar com os jatos de mangueira no nervoso condutor e em seu atônito instrutor.

Nos planos ainda não realizados de dona Helena está uma audiência, já marcada, com o prefeito e com o deputado da cidade. Se nada funcionar, planeja um ataque terrorista à auto-escola para esvaziar os pneus de todos os automóveis da instituição.

Apesar de todo o estardalhaço, dona Helena sente um pingo de tristeza quando chega em casa e pode entrar livremente em sua garagem. Apesar de nunca reconhecer isso verbalmente, fica um tempinho no portão olhando para os lados para ver se não aparece nenhum candidato a piloto urbano almejando praticar uma baliza. A luta contra os carros de auto-escola já é um objetivo de vida, uma razão social para se lutar. Se tudo se resolver, dona Helena provavelmente não vai nem mais sair de carro tamanha a tristeza. Os terríveis carros de auto-escola já são rotina em sua vida. E nada mais chato que uma alteração na rotina.

 

Ituiutaba, 30 de junho de 2002.

Apenas uma nota básica

Uma das piores coisas que já vi na vida é a expressão “mara”. Do tipo: “Nossa amiga, você hoje está MARA”. Talvez seja chatice minha mesmo, frescura, infelicidade. Vai que eu sou julgada como uma infeliz, que critica todo mundo, fala mal de todo mundo enche o saco de todo mundo e num to sabendo. Melhor que pensem isso de mim. Antes assim do que pensarem que eu sou Maraaaa! Às vezes vale a pena implicar com as pessoas, ter raiva delas. Depois passa um tempo e você reencontra alguma vítima e vê que ela sempre desejou seu bem enquanto você quase que só desejava o mal dela. Aí dá uma sensação de paz no interior e você fica meio arrependida e limpa a alma. É uma sensação que vale a pena. Parece até que tem trilha sonora enquanto você anda pela rua pensando que ela nunca te fez nada e o problema era todo seu e agora você está arrependida e feliz. Mas acho que sempre odiarei e nunca na vida sentirei essa sensação por alguma mulher que um dia venha me chamar de Mara, Flor/Florzinha, Anjo, e, principalmente, que não depile as axilas e que venha feder em cima de mim. Bom, vai que existe esse tipo de mulher nos ambientes corporativos e eu ainda não conheci, não é?

(Ou conheci?)

Férias

Dia 1:

Enfim chegaram as minhas férias. 20 dias só para mim. Tantos planos! Tantas coisas pra fazer! E vou ter 20 dias inteirinhos para fazer tudo que nunca dá tempo de fazer por causa do trabalho. Amo a vida, amo os animais!

 

Dia 2:

Como assim? Eu preciso ser eficiente até nas férias? Já fiz tudo que tinha que fazer, e agora?

 

Dia 3:

Cuidar da beleza. Que dia maravilhoso! Comprar! Comer!

 

Dia 4:

Odeio ser eficiente. O que mais pra fazer? Salão de beleza de novo? Comprar mais? Sim. Comprar mais. Gastar todo o dinheiro suado e estressado que você merece.

 

Dia 5:

Que droga. O vestido ficou uma merda, não dá mais pra gastar tanto dinheiro assim. Também não são rios de dinheiro disponíveis. Controle-se.

 

Dia 6:

Não dá pra viajar. Tem a faculdade. Tem casamento pra ir. Legal! Adoro casamentos e sempre dá vontade de chorar. Quero querer casar também.

Machuquei a boca. Fiquei horrível. Tenho que usar maquiagem pra tentar esconder. Que beleza!

 

Dia 7:

Comer. Estou com tosse, será que vou ficar doente? Comer. Queria aquele creme de papaia, mas acabei não pedindo para o garçom.

 

Dia 8:

Aquele creme de papaia. Tosse. Frio. Febre. Fiquei doente. Doente e apaixonada.

 

Segunda semana:

Doença, febre, dor no corpo. Parece que estou de férias há umas 3 semanas. Ainda bem que fiquei doente nas férias. Será que é dengue? Mas parece mesmo uma forte gripe. Nada de faculdade, vou passar doença pra todo mundo.

 

Terceira semana:

Essa é a última semana de férias. Sarei, tenho apenas restos de tosse. Tenho saudades. Estou sozinha em casa. Todos estão longe. Acho que já preciso voltar a trabalhar. Cabeça vazia é a casa do diabo. Comprei mais um livro, o quarto que vou ler esse ano, Crepúsculo. Estou gostando. Já li A Menina que Roubava Livros, Greta, A Insustentável Leveza do Ser e agora este.

Minha cadela quis um pouco de liberdade, fugiu de casa. Era minha companheira. Preciso ocupar minha mente. Ocupem minha mente!!! Levo trabalhos de faculdade pra fazer em casa, mas são rápidos de fazer. Emagreci. Como muito. Ocupem minha mente!!!

 

Será que eu irei sobreviver a essa terceira semana tão solitária?

A casa

A gente tenta se levantar dos tombos, limpar a bunda e seguir em frente. Mas nada mudou.

A gente se vai, a gente se deixa, mas a casa vai continuar lá, naquele mesmo lugar. A casa não foi só minha, não é mais minha e não será de ninguém mais.

Mas nada mudou.

Meu catinho ainda está lá, meu guarda roupas ainda está lá e nem deu tempo de aumentá-lo como eu queria. As escadas ainda estão lá e por baixo daquela tinta nas paredes ainda estão os desenhos que fiz e as primeiras palavras que escrevi.

A mesa ficou e foi nela onde cantei vários parabéns da minha vida e da vida dos que lá também moraram. A casa está lá no mesmo lugar, com a mesma aparência, com as mesmas escadas e a mesma piscina. Ela está com o mesmo ar de minha casa, mas agora a gente percebe que ela ficou triste.

O passeio é o mesmo e foi lá onde fiz vários brechós para ganhar um dinheirinho quando minha mãe falava pra eu me virar. As janelas são as mesmas, o cantinho escuro é o mesmo, os banheiros também não mudaram nada. Ainda há vestígios de algumas festas e de alguns amigos que por lá passaram e nadaram.

Ainda há um pouco dos inúmeros cachorrinhos que lá nasceram, viveram e morreram. Os muros esperam a gente voltar, mas tudo foi tão rápido que nem deu pra despedir e avisar que não vamos voltar.

O garotinho agora já deve alcançar no interfone e eu espero que ele volte lá, toque a campainha e saia correndo como fiz com várias casas e com aquela também.

Nada mudou. Espero que nada mude naquela casa.

A minha colega de quarto

Como era de se esperar, esse ano de 2009 é um ano de várias mudanças. Uma delas já começou: meus pais e meu irmão estão mudando de cidade e eu estou ficando com minha linda cadelinha chamada Kalla.

Como minha casa é muito grande e as despesas vão aumentar, eu tive que sair dela para a alugarem e ajudar no aluguel de um apartamento na nova cidade que eles vão morar.

Então eu me mudei. Me mudei para um ambiente diferente, uma casa onde moram pessoas mais velhas. Tirando eu, de 22 anos e a Kalla de 9, a mais nova da casa tem 69 anos.

A mais velha tem 93 e é a minha colega de quarto. É bem legal dividir um quarto com uma pessoa que tem a cabeça bem diferente da sua. E que ronca muito de noite. Mas isso não me incomoda. Seu nome é Abigail, sempre foi solteira, nunca quis casar e é mais religiosa que uma freira. Super católica e fiel à sua religião, Abigail, nos tempos antigos, antes de dar o dinheiro, sempre perguntava a religião daquele que pedia esmola pra ela.

Sua mãe ficou grávida 21 vezes, mas ela conviveu com apenas 16 irmãos. Hoje restam ela e mais uma irmã de 103 anos, que mora com o filho.

Apesar da idade, Abigail é bastante esperta, forte e inteligente. Seu principal lazer é fazer lindos sapatinhos de crochê para bebês e acompanhar a missa pela televisão. Mas ela também faz caminhadas pela manhã e de vez em quando viaja com uma sobrinha, que cuida dela como se fosse filha, pra várias cidades. Ela adora também passear de noite, conversar em uma mesa com pessoas e muitas vezes não quer ir embora pra casa.

Todas as noites, antes de dormir eu gosto de ler um livro. E ela gosta de rezar. Então ela sempre me fala que eu posso ficar lendo com a luz acesa porque ela reza até dormir e a claridade não atrapalha. Ela coloca sua camisola (e deve ser por ser gordinha, mas ela não é enrugada e tem a pele muito firme), arruma a cama deita. Fala pra eu dormir com Deus umas 5 vezes, pois sempre inventa um assunto antes de começar a rezar.

Esses dias ela disse que estava um pouco preocupada comigo, porque ela viu que eu não sei cozinhar, não lavo e não passo. Então, como é que eu vou cuidar do meu marido?

Outro dia perguntou quando é que eu vou me casar, porque eu tinha que terminar os estudos que eu já comecei. Eu respondi:

– Ihh, mas eu ainda vou demorar muito pra casar! Quero fazer muita coisa ainda.

– Mas quantos anos você tem, é tão nova assim?

– Estou com 22 anos!

– 22??? Eu pensei que tinha no máximo 18! – e murmurou baixinho virando o roso – tá velha já.

Conviver com pessoas mais velhas assim não é muito fácil, pois temos que falar várias vezes uma mesma coisa e falar quase gritando. Mas são pessoas cheias de histórias para contar, divertidas e que valorizam mais a vida do que os jovens, pois sabem que em breve não estarão mais aqui. O fato de não terem medo da morte e de encará-la com naturalidade é um grande ensinamento pra gente, que ás vezes temos medo de pequenas coisas como levar bronca de um chefe por termos perdido a hora ou não conseguir uma nova vida em outra cidade, como é o caso dos meus pais, ou não conseguir fechar um grande negócio na sua empresa ou ir à falência.
Bobeira nossa, pois vendo a Abigail eu digo pra não se preocuparem, que ainda temos muito o que viver. “E é só quando se chega na minha idade que olhamos para trás e conseguimos pensar que aqueles problemas não eram nada de mais”.