Porta de Garagem (ou PONTO DE BALIZA)

 

Pseudônimo do autor: Rubão

 

         É engraçado como alguns acontecimentos do nosso dia a dia, por mais inocentes que possam parecer, alteram profundamente nossa estabilidade emocional. Talvez porque provoquem uma alteração da rotina, a mais preciosa propriedade do homem contemporâneo. Quer algo mais protegido e avesso a mudanças que a rotina? Apesar de constantemente criticada, ninguém – ou quase ninguém, há sempre aqueles de comportamento inesperado – quer mudá-la.

O próprio organismo humano tem sua rotina, o relógio biológico sabe exatamente que o horário de se ver livre dos restos apodrecidos de alimentos que estão alocados no intestino é precisamente após o almoço. Eu mesmo às vezes tenho que sair correndo da mesa para o mais confortável dos tronos, meu protestante e exigente intestino grita imperativo: “a sobremesa pode ficar para depois!”.

Saber que o almoço estará à mesa no horário certo acalma a revolta do estômago e, por conseguinte, do resto do organismo. Assim como é confortante o “Jornal Nacional” começar sempre em seu horário habitual, o tanque de gasolina acabar sempre perto do sábado, o comercial de TV durar exatamente o tempo de ir ao banheiro e correr à cozinha para pegar umas bolachas e a porta da garagem estar sempre livre ao se chegar em casa. E é exatamente isso que não acontece com dona Helena.

Sempre que vai entrar ou sair da garagem de casa, dona Helena é obrigada a travar uma cabeluda discussão com os instrutores de auto-escola que insistem em ensinar baliza aos seus alunos na porta da sua garagem.

– Roda dura duma figa, tira essa banheira colorida da porta da minha casa! Biiiii – biiii…

– Calma, dona! Calma! – responde calmamente o infame instrutor. O aprendiz, agora mais nervoso do que antes, tira, aos trancos, o automóvel do local, quase provocando um acidente sem precedentes ao sair sem olhar para trás.

Dona Helena já até proibiu o marido de estacionar a caminhonete debaixo das árvores que ele plantou em frente de casa para lhe servir de sombra e que os instrutores usavam para servir como referência às tão faladas balizas, mas um gentil desconhecido faz a gentileza de alocar seu Opala cinza no local, afinal “uma sombrinha dessas dando sopa é azeitona na empadinha”, mantendo assim o ponto de baliza.

Dona Helena já tentou de todos os recursos possíveis para ver sua garagem livre, mas todos foram em vão. Já reclamou na direção da auto-escola, lugar onde já é conhecida como “a dona imperfeita do ponto da baliza perfeita”, já ficou escondida durante um dia inteiro com uma vassoura na mão para espantar a vassouradas os futuros motoristas e já fez até um abaixo assinado, no qual conseguiu obter a suntuosa quantia de 582 assinaturas. Isso sem contar com os jatos de mangueira no nervoso condutor e em seu atônito instrutor.

Nos planos ainda não realizados de dona Helena está uma audiência, já marcada, com o prefeito e com o deputado da cidade. Se nada funcionar, planeja um ataque terrorista à auto-escola para esvaziar os pneus de todos os automóveis da instituição.

Apesar de todo o estardalhaço, dona Helena sente um pingo de tristeza quando chega em casa e pode entrar livremente em sua garagem. Apesar de nunca reconhecer isso verbalmente, fica um tempinho no portão olhando para os lados para ver se não aparece nenhum candidato a piloto urbano almejando praticar uma baliza. A luta contra os carros de auto-escola já é um objetivo de vida, uma razão social para se lutar. Se tudo se resolver, dona Helena provavelmente não vai nem mais sair de carro tamanha a tristeza. Os terríveis carros de auto-escola já são rotina em sua vida. E nada mais chato que uma alteração na rotina.

 

Ituiutaba, 30 de junho de 2002.

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