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Papo de copeira

Seus peitos se misturam com a barriga e sua altura não chega a 1.55. Seus cabelos são pretos, embaraçados, compridos e fogem fios arrebentados da toca que ela tem que usar quando entra na cozinha. Seu rosto é redondinho, sua boca pequena e cheia de dentes cinzas e pretos. Deve fumar. Sempre que dá, se encosta na pia cheia de louças sujas, tira o pé direito do chinelo gasto, o apóia na canela esquerda e toma uma xícara de café “o meu café é o mió que tem”.
“Meu marido tá fazendo feira pra uma vagabunda, nóis tá pra separá”. Conversa mais que uma maritaca. “Tô nem aí, aqui tem muito homem me quereno”. Mastiga o pão com a boca aberta. “Meu cabelo é lindo, eu sou nova, num tô pra ser jogada fora. Tô cheia de pobrema, pra que me preocupá com as vagabunda?” Limpa a manteiga que cai entre os peitos e lambe os dedos. “Depois que meu fi sofreu acidente eu cheguei na cara do meu marido e falei que se ele tivesse morrido num ia nem chegar perto do cachão”. Coça a canela esquerda com o dedão do outro pé, com as unhas cheias de micose. “Agora meu fi juntô com a namorada grávida. Ele arranjou pobrema, porque ela tá com 15 ano e ele com 20. Os casamento hoje em dia num tá durano nada, né não?”
Na hora de lavar a louça, encosta a barriga na pia, se apóia na perna direita enquanto fios arrebentados voam da toca. “Talvez ocê tem sorte. Já vi seu namorado te buscar aqui. Traição é coisa de sorte, talvez cê nasceu de sorte, sem pobrema de marido”. O zíper da bermuda vive aberto e a barriga vive molhada por causa da água da pia. “Eu num saio daqui sem arranjar um outro namorado, tem um aqui doidinho pra me abraçar, meu marido num sabe o que tá perdeno se envolvendo com essas vagabunda”.
Pega a vassoura e varre a sujeira pra fora. “Ontem fui no salão de beleza com os cabelo solto e a cabelerêra me perguntou se eu passei chapinha. Passo nada, é de dá inveja messssss”.
“Ai, menina, eu odeio sujêra, é por isso que insinu meus fi ser tudo hingiêninco”. E finaliza seu dia limpando café do chão com o pano de enxugar louças molhadas. Sem parar de falar.